RETRATOS DE MULHERES
Sílvia Maria Azevedo - UNESP/Assis
Dentre as profundas transformações operadas pelo Romantismo, a percepção do homem como ser histórico foi de importância decisiva no desenvolvimento da tradição intelectual européia e americana. A consciência da dimensão histórica do homem advém da vasta historização que, durante a época romântica, tomou conta de todos os campos do saber humano. Enquanto no Século das Luzes, a História era compreendida como produto de “vidas ilustres” (sábios, reis, filósofos), cujo desempenho contribuía para o aperfeiçoamento ou progresso das sociedades, no período romântico, a prática histórica passa a designar, não a ação isolada de um homem abstrato, mas a atuação de indivíduos que encarnam antes uma vontade coletiva do que individual. Parceiro no processo de pluralização da História, o conceito de nação ou pátria vai atuar como poderosa idéia-força no sentido de compreender e aglutinar as sociedades em comunidades, nações, raças. Isso explica porque o estudo da “personalidade coletiva” ou espírito nacional tenha se constituído, durante o Romantismo, em objeto privilegiado das pesquisas históricas.
Trazidos para os trópicos, o culto da História e a teoria do espírito nacional, ao lado da correspondência ao modelo romântico europeu, foram adequados às particularidades e necessidades (políticas, sociais, históricas) das sociedades locais. A idéia de nação, em terras americanas, a exemplo do Brasil, além de reafirmar a identidade e a autonomia de grupos regionais, revestiu-se de caráter ufanista e, em vários momentos, esteve muito próxima da xenofobia. A configuração dessa idéia de pátria, enquanto expressão de nacionalismo, manifesta-se com particular ênfase no momento (início do século XIX) em que os países latino e ibero-americanos cortam os laços de dependência política em relação às metrópoles européias (Portugal e Espanha). Nesse contexto, a História não apenas confere legitimidade aos Estados surgidos do movimento da Independência como possibilita a entrada dos novos países para o mapa-múndi das geografias independentes.
A aliança entre historicismo romântico e nacionalismo foi responsável por um verdadeiro surto da narrativa histórica que assolou as Américas, hispânica e latina, durante os anos de 1839 a 1880. Nesse período, em que a temática histórica invade todos os discursos, inclusive o literário, e neste, todos os gêneros (teatro, novela, poesia), desfazendo os limites entre a História strictu sensu e a ficção narrativa, são escritas as grandes histórias nacionais, as primeiras histórias literárias, as biografias das celebridades pátrias.
No Brasil, um bom exemplo da explosão do gênero biográfico, na época do romantismo, é a obra Brasileiras célebres, de Joaquim Norberto de Sousa e Silva (1820-1891), escritor cujo nome encontra-se associado à vasta produção de caráter marcadamente histórico, podendo-se destacar as obras História da conjuração mineira e História da literatura brasileira, esta última incompleta. Originalmente, o trabalho de Norberto foi publicado na Revista Popular (1859-1862), periódico carioca identificado com o ideário romântico-nacionalista brasileiro. Na composição do livro, que sairá em 1862, o autor vai reaproveitar quase todos os perfis biográficos femininos publicados de forma esparsa naquela revista, reagrupando-os em sete capítulos cujos títulos merecem ser conhecidos: “Amor e Fé”, “Armas e Virtudes”, “Religião e Vocação”, “Gênio e Glória”, “Poesia e Amor”, “Pátria e Independência” e “Louvor e Crítica”. Um painel dos principais acontecimentos da História do Brasil, desde o descobrimento até o Império, antecede os capítulos e cumpre a função de traçar o caráter historicamente determinado da sociedade brasileira. Quem assina o prefácio de Brasileiras célebres é o próprio editor do livro, Baptiste Louis Garnier.
Ao denominar a obra de “galeria das senhoras dignas de celebridades”, Garnier inscrevia o trabalho de Norberto na tradição das “galerias” ou “panteões”, que se instaurou no Brasil pós-independência, cujo objetivo era buscar no passado do país exemplos de moralidade e rigor patriótico. Os varões ilustres do Brasil durante os tempos coloniais (1858), de João Manuel Pereira da Silva, Biografias de alguns poetas e homens ilustres da província de Pernambuco (1856-1858), de Antônio Joaquim de Melo, e Panteon maranhense (1857-1875), de Antônio Henriques Leal são alguns dos títulos da vasta galeria de brasileiros famosos. A novidade das Brasileiras célebres em relação a essa tradição biográfica estava no resgate da figura feminina enquanto partícipe das tarefas fundamentais na constituição de uma sociedade em formação. Em contraposição à visão misógina da burocracia eclesiástica colonial cujo conhecimento do mundo feminino circunscrevia-se à perspectiva mística, os intelectuais românticos e progressistas, no interesse de recuperar a imagem da família e do matrimônio, investiram a mulher da nobre tarefa de atuar na simbiose da mãe-pátria. Um exemplo significativo dessa aliança é representado por Dona Maria de Sousa, nobre pernambucana, “talhada no molde das antigas Espartanas” (SILVA, 1997, 90), que, depois de perder o genro e três filhos na luta contra os holandeses invasores, ainda encontra coragem para mandar outros dois para a guerra.
As mulheres, melhor dizendo, as brasileiras, foram chamadas a colaborar na realização do ideário patriótico e independentista não apenas enquanto mães mas também como guerreiras, como foi o caso de Dona Maria de Medeiros, valente baiana do Recôncavo, que em “trajos varonis” (SILVA, 1997, 212), foi lutar pela pátria, ameaçada de perder a soberania recém-conquistada para as tropas portuguesas rebeldes. Modelo ainda mais elevado de abnegação feminina ao país foi de outra senhora baiana, madre Joana Angélica, a “freira mártir” (SILVA, 1997, 198), vítima da insânia sanguinária dos portugueses que, no século XIX, ousaram profanar o Convento da Lapa. Importante aliado do programa romântico brasileiro, o Cristianismo também forneceu a sua cota de mulheres mártires à causa nacionalista, podendo ser encontrados modelos de “Amor e Fé” entre as índias convertidas, Catarina Álvares e Damiana da Cunha: a primeira, menos conhecida pelo nome cristão de batismo, é como Paraguaçu que foi imortalizada por Santa Rita Durão no poema Caramuru; a segunda, retrato da “mulher visionária” (SILVA, 1997, 66), colaborou com os portugueses na captura dos irmãos caiapós.
A missão de Joaquim Norberto enquanto historiador a serviço do projeto romântico-nacionalista brasileiro estaria completa quando Brasileiras célebres fosse adotada pelas escolas, como propunha Garnier no prefácio da obra. Por sua vez, as brasileiras agraciadas de “gênio” poderiam colaborar junto às instâncias educacionais se escrevessem obras úteis à sociedade, como foi o caso de Dona Gracia Hermelinda da Cunha Matos, autora de uma colação de máximas, “oferecida às meninas brasileiras” (SILVA, 1997, 174). Desde a infância, as crianças deviam aprender a amar o Brasil e inspirar-se, no caso das meninas, nas celebridades femininas do passado, para a eficácia do programa nacionalista.
Se Norberto apenas soube enxergar nas brasileiras exemplos de virtude e heroísmo, os viajantes estrangeiros que nos visitaram no século XIX, viram-nas como mulheres que, afastadas dos campos de batalha, viviam confinadas em casa, vigiadas por maridos ciumentos, como pôde observar Arsène Isabel, que esteve no Brasil em 1834: “O caráter sombrio e excessivamente ciumento dos Brasileiros assaz contribui para o isolamento das Brasileiras, que parecem ser condenadas a viver ainda algum tempo [grifo no original]. Vi muitas dentre elas joviais, bonitas, amáveis e ainda graciosas que poderiam figurar nos passeios e na sociedade, que poderiam encantar e animar com a sua presença as reuniões formadas unicamente por homens, tão tristes e tão insípidas como insuportáveis.” (SILVA, 1997, 229). Três anos mais tarde, em nada havia mudado a situação feminina no Brasil, o que se constata no comentário de outro viajante, Eugène Delessert, que estranha o costume dos Brasileiros em não admitir a companhia de pessoas estranhas junto de suas senhoras: “Tal caráter sombrio e zeloso explica, sem que o justifique, o isolamento em que vivem as Brasileiras que não freqüentam a sociedade estrangeira. Existência assim contribui para que fiquem na ignorância dos costumes sociais; elas não compreendem a vida da sociedade, que se lhes proíbe e daí um não sei quê de timidez que nelas se nota e que faz como que duvidar de sua aptidão intelectual” (SILVA, 1997, 228)
Trinta e seis anos depois de Brasileiras célebres, é publicado no Rio de Janeiro, em 1899, às portas do século XX, Mulheres ilustres do Brasil, de Inês Sabino, obra que, em resposta às críticas dos viajantes estrangeiros, visava a “arrancar a mulher da submissão, do receio, e da timidez, em que até hoje tem vivido” [e] a “despertar-lhe o sentimento da autonomia, a consciência do próprio valor” (SABINO, 1996, XVII), nas palavras de Artur Orlando (1858-1916), que assina a “Carta à leitora”. Os títulos de ambas as obras, assim como os objetivos subjacentes, não deixam dúvidas quanto às mudanças que aconteceram no espaço de tempo que separa uma da outra: no trabalho de Joaquim Norberto, a mulher tem espaço na medida em que, através de atos heróicos, torna-se digna de representar o Brasil, que a recompensa com a celebridade, isto é, a imortalidade da História; no de Inês Sabino, ainda que a brasileira continue investida da missão de corresponder à imagem de seu país, ela o faz na condição de mulher ilustrada, instruída, o que ia ao encontro do programa de educação da população feminina brasileira, do qual ficaram encarregados, dentre outros, periódicos como A mensageira, onde Sabino comparece com alguns textos.
Ao lado da instrução, outras transformações igualmente importantes no que se refere à história da mulher, no final do século XIX e começo do XX, foram os movimentos feministas e o voto feminino que, vindos da Europa, terão repercussão nos países da América, em uns de forma mais lenta, em outros mais rápida, a depender das condições histórico-sociais de cada um deles. No Brasil, desse tripé, deu-se particular ênfase à educação, ficando em segundo plano, quando não eram abertamente criticados, o feminismo e o direito da mulher ao voto, estes vistos por Artur Orlando - que representa o pensamento de muitos intelectuais brasileiros da época, entre eles, Inês Sabino, é claro -, como nefastos, na medida que punham em risco o “tríplice destino” da mulher: o de irmã, esposa e mãe (SABINO, 1996, XIV). E mesmo no que se refere à educação, Orlando é de opinião, apoiando-se em Fouillée, autor de A psicologia dos sexos e seus fundamentos psicológicos, que deveriam ser levadas em conta as diferenças psicológicas entre o homem e a mulher, uma vez que “o espírito da mulher caminha do geral para o particular, da espécie para o indivíduo”, enquanto que o do homem “segue marcha oposta, parte da diferença para a semelhança, da multiplicidade para a unidade” (SABINO, 1996, XII-XIII)
Nas mais de três décadas que separam a obra de Inês Sabino da de Joaquim Norberto, é de supor que nenhum outro trabalho do gênero das biografias femininas tenha sido publicado entre nós, e muito menos por uma mulher, a levar em conta as considerações que a autora de Mulheres ilustres do Brasil faz no prefácio da obra, onde, em referência a Norberto, diz que este esperava que uma “senhora brasileira” viesse dar continuidade ao trabalho por ele iniciado. Sabino é essa “senhora brasileira” que, atendendo ao apelo do autor de Brasileiras célebres, idealiza o seu panteão feminino, de forma que a “lição de história pátria”, que cada mulher biografada venha a representar, não deixe de realçar “os tons dos sentimentos de cada esboçada em suas qualidades afetivas” (SABINO, 1996, VIII). Daí também que, se há intenção de resgatar as mulheres do passado, ligadas aos “fastos da história”, interesse maior há em “salientar as que sobressaíram nas letras”, mostrando que a mulher não deve viver somente “pelas virtudes, nem pelas graças: ela deve, necessita, agir pela inteligência, de acordo com os seus deveres morais e cívicos...” Coerente com essa proposta, a expectativa de Inês Sabino é que a sua obra, que previa a publicação de um segundo volume, viesse a se tornar a “Bíblia da instrução moral e cívica” (SABINO, 1996, IX), propósito que faz lembrar o de Brasileiras célebres, conforme proposta de Garnier.
Ao dar continuidade à incipiente tradição brasileira das biografias femininas, Sabino apresenta em sua obra um elenco de quarenta e duas biografadas, sendo que dezessete já haviam comparecido no trabalho de Norberto, enquanto que as demais vinte e cinco foram distribuídas da seguinte forma: uma pertence ao século XVI, duas ao XVII, três do XVIII e as restantes dezenove, a maior parte, perfis de ficcionistas, dramaturgas e poetisas, são do século XIX. Além de ampliar o repertório canônico dos retratos das mulheres brasileiras, a autora organiza as biografias por ordem cronológica, do século XVI ao XIX, de forma a acompanhar/contar a história da mulher no Brasil, perspectiva que se opõe àquela adotada por Joaquim Norberto que agrupa as brasileiras biografadas em função dos valores representados pelos títulos dos sete capítulos acima referidos, como acontece, por exemplo, no que foi nomeado “Amor e Fé”, do qual fazem parte uma brasileira do século XVI e outra do XIX.
O panteão de Inês Sabino, como o de Norberto, também se inicia com uma figura de mulher do século XVI: Paraguaçu ou Catarina Alvares, conforme é chamada pelo segundo, Catarina Paraguaçu, na referência da primeira. Em que pese os aspectos comuns de que participam ambos os biógrafos, em resumo, o efeito benéfico do Cristianismo em relação às populações indígenas, que, tirando a mulher brasileira do estado de barbárie em que se encontrava, diviniza-lhe o “instinto de maternidade” (SABINO, 1996, 1) e a regenera, através do batismo cristão, da “culpa original”, primeiro passo para que a Igreja reconheça Paraguaçu como “esposa daquele a quem ela votara o mais puro amor” e legitime a sua “união conjugal” (SILVA, 1997, 57) e a atuação moralizadora do português Diogo Álvares Correia, o Caramuru, junto aos índios Tupinambás, fazendo-os construir cabanas “muito mais decentes ao recato das famílias” (SILVA, 1997, 57), as diferenças de enfoque já se manifestam na maneira com que cada autor nomeia a representante do século XVI. No título de Norberto, o ou que separa um nome do outro traduz o processo de conversão à cultura européia pela mulher que, nascida índia, assimila os valores dessa cultura, quer no nome - homenagem à madrinha Catarina de Granges, moradora de Saint Malo, e não, como durante muito tempo se pretendeu, às rainhas Catarina de Portugal ou de França (CALMON, 1976, 43) -, quer no sobrenome do marido. O recurso à dupla nomeação, por sua vez, embora designando a mesma pessoa, permite identificar cada nome com um tipo de registro da memória, em que Paraguaçu faz parte da lenda, e Catarina Álvares, da História. Já a escolha de Inês Sabino foi pela fusão dos nomes, o que traduz a intenção de retratar a mulher de Diogo Álvares na condição de convertida e de índia, ou então, de convertida que ainda continua sendo índia. Em ambas as interpretações, identifica-se uma espécie de duplo no nome Catarina Paraguaçu, sem deixar de observar que, nesse caso, o designativo indígena passa à condição de sobrenome, símbolo, talvez, da independência a que a mulher do século XIX vinha aspirando, em particular, a subordinação ao marido, através do casamento.
Enquanto historiador, Joaquim Norberto tem a preocupação de traçar o perfil biográfico de Catarina-Paraguaçu de acordo com as fontes históricas de que se vale, dentre elas, as obras História do Brasil (1627), de Frei Vicente do Salvador, e História da América Portuguesa (1730), de Sebastião da Rocha Pita. Por isso mesmo é que, em referência às aventuras de Caramuru, imortalizadas no poema de mesmo nome de Santa Rita Durão, o autor de Brasileiras célebres nega veracidade histórica aos episódios narrados na epopéia de Durão, “por falta de documentos em que melhor se baseie” (SILVA, 1997, 58). Por seu lado, Sabino parece não levar em conta as dúvidas da História em relação aos episódios do Caramuru (o que não quer dizer que a autora não tenha recorrido às fontes históricas, como fez Joaquim Norberto, em especial Rocha Pita, que é mencionado), tanto que não faz os reparos de Norberto, o que permite identificar a epopéia de Durão como referência indireta no capítulo sobre Paraguaçu. É por acreditar, talvez, que a imortalidade da índia tupinambá é obra muito mais da lenda e da literatura do que da História, que Inês Sabino faz acompanhar o perfil biográfico de Catarina Paraguaçu do quadro em que ela aparece ajoelhada diante da imagem da Virgem Maria, e que foi executado pelo pintor, tendo por referência a lenda relatada na obra de Rocha Pita: a Virgem Maria teria aparecido em sonho à índia convertida pedindo-lhe que fosse buscar-lhe a imagem, abandonada entre os destroços de um navio que, com destino para as Índias, havia naufragado na costa de Boipeba. Partindo da mesma fonte histórica, Joaquim Norberto não faz qualquer referência ao pretenso sonho de Catarina Álvares, limitando-se a mencionar a construção de uma “rústica capela, dedicada a Nossa Senhora da Graça” (SILVA, 1997, 57), dentre os empreendimentos realizados por Diogo Álvares, em Vila Velha.
Se é possível ler o nome Catarina Paraguaçu como tentativa, por parte de Sabino, de isolar a figura da índia convertida da do marido, isso não implica que ela esteja fazendo qualquer questionamento em relação aos assim chamados ideais femininos: o matrimônio e a maternidade. Ao contrário, são estes mesmos ideais que a autora dará destaque nos perfis das Mulheres ilustres do Brasil, o que acontece, por exemplo, no que traçou de outra índia convertida, esta agora do século XVII pernambucano, Clara Camarão, esposa do índio Poti, também conhecido pela História com o nome de Antonio Felipe Camarão. Depois de ter lutado em inúmeras batalhas ao lado do marido, Clara “voltou para a tranqüilidade do lar, onde, em silêncio sobre o assunto, abriu os braços à família que necessitava dos seus carinhos e dos seus conselhos” (SABINO, 1996, 30)
É por participar, com Artur Orlando, da idéia das diferenças psicológicas entre o homem e a mulher, determinantes nos papéis que cada um vai exercer na sociedade, que Sabino interpreta como sendo “uma verdadeira aberração da natureza” (SABINO, 1996, 89) a decisão da jovem e bela fluminense, Maria Úrsula de Alencastro, que, com a idade de dezoito anos, resolve “trocar os trajos femininos pela grosseira roupa de soldado dos tempos coloniais” (SABINO, 1996, 89) e ir para Portugal, lutar pela pátria. Esse comportamento aberrante, aliás, ter-se-ia manifestado já na infância, quando Maria Úrsula preferia, nas brincadeiras, os brinquedos dos meninos aos das meninas, deixando manifesto seus pendores bélicos, ao dizer: “Eu quero ser soldado; não nasci para mulher” (SABINO, 1996, 89-90) Na medida em que o ardor patriótico da jovem fluminense manifestou-se na forma do excesso, afastando-a dos deveres de esposa e mãe, Sabino avalia negativamente o comportamento de Maria Úrsula, considerando-a “uma doente, cuja cura, conforme os preceitos da ciência moderna, seria, quem sabe, para a mesma ciência um fenômeno digno sem dúvida de um sério estudo” (SABINO, 1996, 92) Joaquim Norberto, por seu lado, fará uma outra leitura do pendor guerreiro de Úrsula de Alencastro, compreendendo como expressão do mais legítimo amor pela pátria o fato de ela ter conservado durante toda a vida, “como lembrança de seus feitos brilhantes, tanto o trajo varonil, como a espada, testemunha de seu heroísmo” (SILVA, 1997, 99).
Os fanatismos das mulheres, quer patrióticos, quer religiosos, interpretados que são por Inês Sabino como desvios da normalidade, levaram a biógrafa a não acolher uma representante do século XVIIII mineiro, conhecida pelo nome de Irmã Germana. A notoriedade da moradora de Ouro Preto deveu-se aos periódicos surtos de alucinações místicas de que era acometida, e que passaram a ser vistos pelos habitantes do lugar e das povoações vizinhas como manifestação de santidade. Tamanha era a fama dos poderes milagrosos de Irmã Germana, que ela chegou a receber a visita dos viajantes estrangeiros Saint-Hilaire, Martius e Spix. Aos olhos da ciência, porém, como Joaquim Norberto faz questão de esclarecer, com base em estudo médico, os êxtases da pretensa santa “nada mais eram do que uma catalepsia” (SILVA, 1997, 137).
Embora siga de perto os retratos de mulheres brasileiras delineados por Norberto, Sabino vai imprimir-lhes sua marca pessoal, o que acontece não apenas na visão feminina com que os perfis são construídos mas também na intenção da escritora de criar uma narrativa em que a mulher biografada figure como protagonista. Por isso mesmo, a autora de Mulheres ilustres do Brasil, em que pese o uso da História, como o seu predecessor, vai preencher os vazios deixados por aquela pela criação de uma narrativa que, em muitos momentos, está próxima da ficção. A vida de Jacinta de São José, fundadora da Ordem de Santa Teresa ou Carmelitas Descalças, no Rio de Janeiro do século XVIII, permite que Sabino recrie os primórdios da vida da religiosa: “Desde criança que a pequena afastava-se das criaturinhas de sua idade, para ir rezar no oratório da família e entreter-se com imagens dos altares/ De índole contemplativa, Jacinta não brincava; passava horas esquecidas a fitar o céu, onde dizia ver a Santa Tereza e ao menino Jesus, na sua predisposição naturalmente histérica” (SABINO, 1996, 94) Não se pode deixar de observar que, aqui, como também aconteceu no caso de Maria Úrsula de Alencastro, a construção da narrativa se direciona no sentido de localizar, em apoio à psicologia da época, aquela fase da vida, a infância, em que se manifestam as vocações e/ou os desvios das mulheres.
Se até o século XVIII as figuras elencadas em Mulheres ilustres do Brasil obedecem ao repertório de Brasileiras célebres (ainda que a primeira obra tenha incluído nomes que não constavam na segunda), a contribuição mais expressiva de Sabino está no resgate das personalidades femininas que, muitas delas, pertencentes ao século XIX, fazem parte do grupo das instruídas. Dona Joana de Souza, a quem Joaquim Norberto reserva poucas páginas de seu trabalho, é a primeira mulher do século XVIII, em Pernambuco, a se entregar ao estudo da História e da Geografia. É de supor que a intelectual pernambucana tenha igualmente freqüentado a Musa da poesia, uma vez que, mencionada por Baltazar Machado, Fróes Perim, Ferdinad Denis, Baltazar da Silva Lisboa, tem a sua produção poética por estes equiparada à de Bernardim Ribeiro, Dutra e Melo, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, Casimiro de Abreu. Na opinião de Sabino, Joana de Souza é a primeira mulher instruída do Brasil, ainda que “da sua avultada bagagem literária, o tempo tudo estragou, infelizmente”, lamenta a escritora-biógrafa (SABINO, 1996, 75). Outra figura feminina do século XVIII que também faz parte do rol das ilustradas foi a poeta cega Angela do Amaral, a “Alorna brasileira”, como a chama Sabino (1996, 106) que, mais feliz do que Joana de Sousa, conseguiu deixar o registro de suas composições, na antologia organizada por Manoel da Cunha de Andrade e Sousa, Júbilos da América (Lisboa, 1754) Na confluência do século XVIII para o XIX, Delfina Benigna da Cunha (que participa das duas obras biográficas) é a “primeira figura literária de alguma importância do Rio Grande do Sul”, segundo Guilhermino César (CESAR, apud MARTINS, 1977, 206), autora dos livros, Poesias oferecidas às senhoras riograndenses, de 1834, e Coleção de várias poesias, de 1846. É possível pensar que, já pelo fato de Delfina Benigna ver publicados os seus trabalhos, tenha sido razão suficiente para Norberto incluí-la no capítulo “Gênio e Glória” de Brasileiras célebres. Para Sabino, por seu lado, o aspecto da vida da poeta riograndense que figura em primeiro plano é a cegueira que a acometeu quando ainda era jovem: privada do direito de casar e ter filhos, a poesia entrou na vida de Delfina como espécie de lenitivo.
É bem verdade que o novecentos brasileiro retratado por Sabino ainda oferece exemplos de mulheres que se enquadram dentro de alguns modelos norbertianos, como o denominado “Armas e Virtudes”, e do qual fazem parte Anita Garibaldi, que combateu ao lado de Giuseppe Garibaldi, na Revolução dos Farrapos; Bárbara de Alencar, que participou na Revolução Pernambucana de 1817; Rosa da Fonseca, que teve o privilégio de ver um dos filhos, Manuel Deodoro da Fonseca, galgar o posto de primeiro presidente do Brasil. Já Maria de Lima das Mercês, mestiça baiana que fundou o convento das Irmãs de São Vicente de Paula, e Ana Néri, outra baiana que ficou célebre por ter atuado na Guerra do Paraguai como enfermeira, correspondem ao tópico “Religião e Vocação”. No entanto, muito mais numerosas são as representantes do tipo “Gênio e Glória”, ou seja, as mulheres escritoras, dentre elas, Nísia Floresta, do Rio Grande do Norte; Ana Lossio, Maria Ribeiro e Corina Coaraci, do Rio de Janeiro; Délia (pseudônimo de Maria Benedita de Berghman) e Revocata dos Passos e Melo, do Rio Grande do Sul. Como se pode notar, a procedência dessas mulheres evidencia que os modelos femininos ilustrados provêm agora de todo o Brasil, contrariamente ao que acontecia nos séculos anteriores, em que, por razões de ordem histórico-político-econômico, coube a Pernambuco o privilégio de oferecer o maior contingente de brasileiras célebres para os anais da História.
Dos nomes elencados, Nísia Floresta é de longe o melhor exemplo da mulher intelectualmente emancipada, além de representar o ideal de civilização a que aspirava o Brasil do final do XIX, quer por esposar algumas das idéias político-filosóficos identificadas com o pensamento avançado da época (o comtismo, o republicanismo, a abolição da escravidão), quer pela vivência na Europa, onde publica grande parte de sua obra, quer pelo convívio com pessoas ilustres do mundo cultural europeu, a exemplo de Victor Hugo, Auguste Comte, Littré, Alexandre Dumas pai e outros tantos. Por isso mesmo, Inês Sabino não esconde a admiração e o orgulho que sente pela colega de profissão, que em 1877 morreu em Nice, longe do seu país: “É-me impossível, ao escrever este nome, não sentir a vassalagem que o espírito rende ao talento culto como era o dela” (SABINO, 1996, 172)
À época em que Sabino publica seu trabalho, no entanto, o nome de Nísia Floresta era praticamente desconhecido dos brasileiros, ainda que muitas de suas obras fizessem parte do acervo da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. O motivo desse desconhecimento, como observa a escritora-biógrafa, é o mesmo que valeu notoriedade internacional à ilustre escritora do Rio Grande do Norte: os longos anos em que viveu na Europa, onde acaba por se tornar muito mais uma cidadã francesa (pois foi na França onde viveu por mais tempo) do que propriamente brasileira. Talvez por isso mesmo é que Nísia Floresta tenha conseguido superar (em parte) as dificuldades com as quais (ainda) se debatiam as companheiras ilustradas no Brasil: publicar trabalhos, escondendo-se por trás de pseudônimos, como fizeram as escritoras Délia e a baronesa de Mamanguape, esta última do Rio de Janeiro; escrever para o teatro, sem que as peças fossem encenadas, como foi o caso da dramaturga Maria Ribeiro, autora de inúmeras obras inéditas, tendo conseguido levar ao palco em 1865 tão somente o drama abolicionista, Cancros sociais, pela companhia de Furtado Coelho; fazer traduções pelas quais os livreiros pagavam uns poucos vinténs, situação a que se submeteu Corina Coaraci (ambas as situações sendo experiências igualmente compartilhadas pelos homens).
De qualquer forma, a atuação dessas mulheres brasileiras não se limita mais a lutar pela pátria ao lado do marido e a refugiar-se, findos os combates, novamente no lar, retomando os afazeres domésticos. Nem a ficar confinadas em casa, obedecendo às ordens despóticas dos maridos que as mantinham afastadas do convívio social, como lamentaram os viajantes estrangeiros que nos visitaram em meados do século XIX. Passando a desempenhar outros papéis, além dos de mãe e esposa, elas conquistaram espaços onde até então o homem dominava com poderes absolutos. Daí que, ao passarem da condição de coadjuvantes à de protagonistas da História, as mulheres ilustres vêm contar uma outra História do Brasil.
Referências Bibliográficas
MARTINS, Wilson. História da inteligência no Brasil. São Paulo: Cultrix, 1977, v.II.
PITA, Sebastião da Rocha. História da América portuguesa. Apresentação de Mário Guimarães Ferri; introdução de Pedro Calmon. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1976.
SABINO, D. Ignez. Mulheres illustres do Brazil. Edição fac-similar. Florianópolis: Editora das Mulheres, 1996.
SILVA, Joaquim Norberto de Souza. Brasileiras célebres. Edição fac-similar. Brasília: Editora do Senado, 1997.